Destaques do mercado brasileiro de HQs, por Dan Arrows

Algumas reflexões sobre o mercado brasileiro de quadrinhos

Em março de 2019, fui convidado para conceder uma entrevista sobre o mercado brasileiro de quadrinhos. Por motivos que desconheço, a entrevista não chegou a ver a luz do dia, mas acho que as informações aqui contidas podem ter alguma utilidade para artistas de todos os níveis, mas especialmente os iniciantes. Então, eu decidi publicá-la. Seguem os meus dois centavos sobre o nosso atual cenário.

– Como você avalia o momento das HQs no país?

Este é, de longe, o melhor momento dos quadrinhos no Brasil. Tanto em relação ao consumo quanto, o que é mais impressionante, em relação à produção de HQs nacionais. Nunca se leu tanta HQ como hoje em dia. E, embora a maior parte do consumo ainda seja de quadrinhos considerados ‘mainstream‘ – mangás, super-heróis da Marvel e da DC, além da Turma da Mônica – a produção brasileira está no seu auge.

A produção independente e “underground” sempre foi forte no Brasil, especialmente a partir dos anos 70. Nos anos 2000, vimos esse nicho se profissionalizar. Ainda encontramos quadrinhos impressos em xerox e grampeados à mão por aí, mas o nível editorial e, principalmente, técnico das produções chegou em um nível que, em alguns casos, chega a superar as produções estrangeiras. O marco dessa profissionalização da HQ independente foi o FIQ de 2013, que coroou o trabalho de diversos artistas Brasil a fora. A chegada da CCXP, em 2014, foi também reflexo desse movimento e de uma leitura acertada, por parte dos organizadores, em enxergar a demanda crescente por esse tipo de material aqui no Brasil. O evento hoje é um dos maiores fomentadores dessa produção, revelando novos artistas ano após ano.

– Qual sua relação com o universo das HQs? De que forma você adentrou nesse universo?

Eu sou um leitor ávido de quadrinhos desde a infância. Hoje em dia, ainda consumo a mídia em grandes quantidades. Atualmente, leio muito mais autores nacionais e independentes do que os quadrinhos ‘mainstream‘, mas ainda os leio.
O meu gosto pelas HQs levou a um estudo sistemático desse material na faculdade, na minha pós e no meu mestrado, na UFMG, em que pesquisei as adaptações de cinema que se baseiam em obras de quadrinhos. O objeto da minha dissertação de mestrado foi Sin City, e os resultados da minha pesquisa podem ser lidos gratuitamente.
Além disso, produzo quadrinhos profissionalmente desde 2000, atuando nos mercados editorial, de educação e também publicitário, produzindo cartilhas e histórias curtas para diversos públicos e fins. Em 2013, comecei a publicar na internet o Samurai Boy. Este projeto projetou o meu trabalho nacionalmente, colocando-me no circuito da CCXP como artista desde a sua primeira edição em 2014. De lá para cá, foram lançados quatro livros impressos e abertas portas para participação em outros projetos e quadrinhos, como os livros O Sorriso de JoãoUm Sonho Careca (ambos escritos pela Dra. Raquel Vilela e prefaciados pelo Maurício de Sousa) e Trocadilhos DB (escrito pelo dublador Wendel Bezerra); e a revista Moleque: A casa da Bruxa, lançada em 2017. Continuo produzindo quadrinhos e o Samurai Boy segue sendo publicado no Brasil e, na internet, também no exterior.
arte de Irmãos Bá, Deodato e Leno Carvalho

– Qual a relevância de nomes como Fábio Moon, Gabriel Bá, Mike Deodato e Leno Carvalho para o universo dos quadrinhos?

É tremenda. Gabriel Bá, junto com seu irmão Fábio Moon, são referência internacional de produção de alto nível em quadrinhos. Suas histórias ganharam o mundo e abriram portas para que vários outros artistas trilhassem caminhos similares. Deodato, por sua vez, dispensa apresentações. Foi um dos primeiros artistas brasileiros a trabalhar para as maiores editoras de quadrinhos do planeta – a DC e a Marvel – , também abrindo portas para diversos ilustradores como Eddy Barrows, Will Conrad, Ig Guará, Eduardo Pansica e outros – incluindo o Leno Carvalho, que também tem uma produção relevante nos EUA e Europa. O que é impressionante em relação ao  Deodato é que ele, com méritos, se destacou enormemente, tornando-se um dos principais artistas do planeta e sendo reconhecido até mesmo fora do “meio”.

– Quais são as maiores dificuldade que os profissionais encontram pelo caminho?

São muitas as dificuldades. Para começar, fazer HQ demora. É um trabalho laboroso e extenuante, às vezes. E os resultados e o reconhecimento demoram a chegar. Se perguntar a qualquer um dos que você citou, nenhum deles dirá que o sucesso veio da noite para o dia.
Mas, uma vez superada esta barreira e a vontade de desistir, mesmo já havendo produzido o seu material, ainda há a dificuldade de fazê-lo chegar até o seu leitor. É verdade que a internet facilita muito este processo – hoje em dia, mais do que em qualquer outra época – mas, ao mesmo tempo, a concorrência é muito maior. Há muitos quadrinhos a ser lidos, mas também há muitas séries estreando em todas as plataformas de streaming.
No caso de quadrinhos impressos, o obstáculo é ainda maior. O autor independente precisa ser profissional e, princiapalmente, empreendedor se quiser que sua mensagem chegue a um maior número de leitores.
Para os que querem seguir os passos do Deodato e do Leno e desenhar para as grandes editoras, a dificuldade é de outra natureza. Embora estas editoras proporcionem um alcance que os autores independentes dificilmente conseguem por conta própria, a concorrência para trabalhar para estas empresas é imensa. Não é impossível, mas é preciso persistir bastante e não desistir quando for rejeitado. Treinar sempre e continuar fazendo quadrinhos: este é o caminho. Não existe atalho.

– Que dicas você daria para aqueles que estão começando?

Se o sonho é desenhar para Marvel/DC, a dica é se inspirar nos desenhistas dessas editoras e treinar seu estilo com afinco. Estas empresas não estão interessadas apenas em bons artistas, mas em artistas que desenhem como os seus. E, principalmente, que entreguem no prazo.
Se o sonho é contar sua própria história, a dica é: conte sua história! Publique na internet, publique regularmente, e, se possível, conclua uma série. Você será um artista melhor quando tiver terminado e poderá iniciar mais um projeto em seguida. E, de projeto em projeto, as portas tendem a começar a se abrir: ou você ganha leitores fiéis, que gostam da sua história e do seu estilo, ou outras empresas e produtores podem querer te contratar. As possibilidades são muitas. Comigo, já aconteceram as duas coisas: consegui leitores e oportunidades, principalmente graças ao Samurai Boy, que eu comecei a publicar sozinho, de graça para quem quisesse ler.
Seja qual for o sonho, no entanto, é preciso levá-lo a termo com afinco. Desenhar diariamente e produzir quadrinhos regularmente. Pode ser que isso não baste (no início, pelo menos), mas não há um artista de sucesso que não tenha passado por isso. Se você quer fazer quadrinhos, FAÇA QUADRINHOS. Ponto.

– Na sua avaliação, é possível que uma pessoa, digamos, sem tanto “talento”, consiga  aprender a desenhar?

Quando as pessoas se referem a “talento” ou “dom”, normalmente elas estão querendo dizer daquela aptidão inata com a qual alguns seres humanos são abençoados. É preciso ser bem claro: ISSO NÃO EXISTE. Posso imaginar que o Mike Deodato de 12 anos desenhasse muito melhor do que seus colegas de classe. Mas imagine o que aconteceria se ele não treinasse todos os dias? O Mike Deodato de hoje certamente ainda desenharia como uma criança de 12 anos.
Escrever e desenhar são habilidades como tantas outras: podem ser aprendidas e ensinadas. E, principalmente, precisam de TEMPO. Eu levei 30 anos para desenvolver o meu “dom”. Trinta anos e calos em todos os dedos da mão direita. Acredite: qualquer pessoa que passar 1 ano, 10 anos, 20 anos desenhando durante 6 horas por dia irá se tornar uma boa desenhista.

– Cite, por favor, três nomes de artistas brasileiros da nova geração que o público deve prestar atenção.

São vários artistas que acompanho e admiro. Citar apenas três é bastante difícil! Mas, vamos lá, aqui vão os meus destaques:
Bittersweet, por Mary Cagnin
  • Mary Cagnin (Vidas Imperfeitas e Black Silence) – atuando no Brasil, já ilustrou para várias editoras de renome. Além disso, faz grande sucesso com suas séries autorais, tendo inclusive sido premiada com o Angelo Agostini de 2017 como melhor desenhista.

Dona Anésia, por Will

  • Will Leite (Will Tirando e Dona Anésia) – um dos jovens cartunistas mais afiados da nossa geração. Seus textos e seu traço são primorosos e de um humor por vezes ácido, por vezes sutil, mas monstruosamente divertido.

Contos dos Orixás, por Hugo Canuto

  • Hugo Canuto (Contos dos Orixás) – debutou transformando deuses da mitologia afro-brasileira em super-heróis. Seu traço, embora busque inspiração no clássico Buscema, tem uma originalidade fascinante.

Mulher-Maravilha, por Bilkis Eveley

  • Bilquis Eveley (Mulher-Maravilha e Sandman) – uma das ilustradaoras brasileiras de destaque internacional, Bilquis é uma das responsáveis pela fase “Ribirth” da Mulher-Maravilha. Seu traço firme e detalhista é expressivo e vigoroso, e sua arte é de encher os olhos.

Há muito mais por aí…

Ainda tem o Max Andrade, o Kaji Pato e as meninas do Studio Seasons, produzindo mangá nacional de qualidade internacional; o Marcelo Alves e o Sami Souza, que prestigiam Machado de Assis em seus quadrinhos; a Renata Nolasco, com seu belíssimo traço e suas cores vibrantes; e, por fim, o Cadu Simões, autor de Acelera SP (que pode ser lida gratuitamente aqui) e Cosmogonias e que, para mim, é o melhor roteirista brasileiro em atividade.

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